A Missão Necessária: Goura, Requião e o PDT do Paraná
Por Rodrigo Ponce
A arena político-partidária brasileira é notoriamente hostil à diferença. É um espaço que, nas palavras de Hannah Arendt, privilegia a “normalidade” e a “repetição” em detrimento da “natalidade” – a capacidade humana de começar algo novo e imprevisível. Inserir um corpo estranho nesse mecanismo, um ativista de formação e com agenda contestatória, é um ato político arriscado. A experiência de mais de dois anos do deputado Goura Nataraj à frente da presidência estadual do PDT do Paraná foi um experimento necessário, um exercício tático e uma lição profunda sobre os paradoxos da ação política.
Goura chegou ao comando do partido não por ambição de poder no sentido tradicional, mas por um imperativo de responsabilidade. Após o desastre eleitoral de 2022, o partido definhava, à beira da irrelevância. Era preciso alguém que, paradoxalmente, não carregasse o estigma da velha política para reanimar seu coração. Goura, filósofo, cicloativista e voz incontornável nas causas do meio ambiente, da agroecologia, da reforma da política de drogas e do direito à cidade, aceitou o desafio. Este foi um ato de coragem: assumir uma trincheira que não era a sua, mas que se revelava fundamental para a batalha mais ampla.
É crucial, porém, reconhecer os limites estruturais desta missão. A formação de Goura no ativismo, e não nas fileiras partidárias, foi simultaneamente sua força e uma dificuldade adicional na presidência. Trouxe frescor e novas perspectivas, mas também significou uma curva de aprendizado íngreme nas complexas artes da negociação e da gestão de maquinarias partidárias. Este desafio foi agravado pela pouca estrutura disponível na agremiação após 2022, pelas dificuldades impostas a qualquer força de oposição ao governo estadual, que restringe espaço de manobra e acesso a recursos, e até mesmo por certo isolamento e distância em relação ao governo federal. Seu mérito foi ter navegado águas tão turbulentas com os instrumentos que tinha.
No mandato parlamentar, Goura age consistentemente com sua biografia: um defensor incansável de pautas progressistas, muitas vezes à frente de seu tempo, desafiando o consenso conservador que domina a Assembleia Legislativa. Já na presidência do partido, sua ação exigiu um outro registro. A gestão partidária, como bem sabem Chantal Mouffe e Ernesto Laclau, é o reino do “político” (a instância da negociação, dos arranjos institucionais e da construção de hegemonias) em oposição à “política” (o momento da contestação e da definição de fronteiras antagônicas). Para alguns, qualquer engajamento com a ordem estabelecida é vista como uma concessão. No entanto, essa visão ignora a complexa dialética entre resistência e instituição, tão cara a pensadoras como Judith Butler.
Os partidos são instrumentos indispensáveis em um campo de batalha onde a pureza ideológica é um luxo que poucos podem ter. Goura compreendeu que a efetividade das pautas radicais depende da existência de um instrumento de mediação e luta – o partido – capaz de potencializá-las. Neste processo, soube calibrar a difícil balança entre a inovação exigida em nosso tempo e a importância de se manter viva a história do partido, bem como a memória afetiva de sua militância e de seu eleitorado. Ele se desdobrou entre a gestão institucional e a manutenção de sua voz independente, um ato de malabarismo político delicado.
Sua presidência não abandonou um projeto transformador, mas soube traduzi-lo para a linguagem da possibilidade concreta. Foi um esforço para reorganizar um partido combalido, reavivando seus princípios e dialogando com a herança de Brizola, Darcy Ribeiro e Lélia González, sem perder de vista as urgências do presente. Goura não capitulou; ele ocupou. Ocupou um espaço de poder tradicional para, a partir dele, semear as sementes do não-tradicional. A gestão de Goura evitou o colapso e reposicionou o PDT paranaense, deixando como legado a lição de que um partido de esquerda só é relevante se for, ao mesmo tempo, uma máquina eleitoral competente e um espaço vibrante de acolhimento para as causas emancipatórias que dão sentido à sua existência.
O momento agora é de transição. Assume o comando o deputado Requião Filho, que traz consigo uma combinação potente para a nova fase: a coerência combativa e o compromisso inegociável com a coisa pública. Outro jovem deputado – Goura e Requião Filho tem a mesma idade – que já demonstrou sua altivez e independência, somadas ao peso e à experiência de uma das tradições mais sólidas e admiradas da esquerda paranaense, reconhecida nacionalmente. Seu pai, Roberto Requião, não é apenas um experiente político; é, para muitos, o melhor governador que o Paraná já teve, um administrador cujas obras visionárias e sua defesa intransigente do Estado permanecem na memória afetiva dos paranaenses como um marco de qualidade e coragem política. Essa herança, longe de ser apenas simbólica, é um capital político real.
A liderança de Requião Filho, cuja pré-candidatura ao governo do estado mostra-se cada vez mais consistente e viável, somada à força da militância trabalhista e dos atuais mandatários do partido, é a base para a próxima etapa dessa reconstrução, cujos desafios seguem enormes. A missão histórica de recompor o trabalhismo paranaense como uma força programática e popular permanece mais necessária do que nunca.
O percurso de Goura Nataraj à frente do PDT do Paraná revela sua lucidez política. Ele demonstrou que, em momentos difíceis, a verdadeira coragem pode não estar no grito mais alto, mas na decisão silenciosa de assumir a responsabilidade por um pedaço do mundo, ainda que imperfeito, para preservar a possibilidade de um futuro mais justo e igualitário. Sua missão foi cumprida. O partido permanece de pé. E agora, que a próxima etapa, sob a firme liderança de Requião, tenha início.
Rodrigo Ponce é Doutor em Filosofia Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Secretário-Adjunto do PDT Paraná.