Planejamento urbano precisa considerar perspectiva feminina para tornar cidades mais seguras

Planejamento urbano precisa considerar perspectiva feminina para tornar cidades mais seguras

Audiência pública proposta pela vereadora Laís Leão reuniu representantes do poder público, academia e sociedade civil

O debate sobre “Mulheres, cidade e segurança”, realizado na noite desta quinta-feira (5) na Câmara Municipal de Curitiba (CMC), deixou clara a necessidade de políticas públicas de planejamento urbano, transporte público e segurança considerarem a perspectiva feminina.

A audiência pública foi proposta pela vereadora Laís Leão, que é arquiteta e urbanista, mestre e doutoranda em Gestão Urbana. Desde a graduação, o foco das pesquisas acadêmicas da parlamentar vem sendo a percepção de segurança das mulheres no espaço urbano. Com a atual revisão do Plano Diretor de Curitiba e os debates sobre a nova concessão do transporte coletivo, a vereadora tem intensificado a atenção às demandas desse público.

“Que a gente não tenha medo de andar na rua, nem de pegar o ônibus. Se um ônibus demorar 40 minutos e não 20 para chegar, isso vai aumentar o tempo de profunda agonia que essa mulher vai passar esperando, muitas vezes sozinha, rezando para não acontecer nada e ela poder chegar segura em casa”, afirmou Laís Leão.

A parlamentar ressaltou que o poder público precisa fazer a análise qualitativa, indo além dos números. “Estamos perdendo usuárias do transporte público e um dos motivos é o medo. É preciso encarar nossos problemas e desigualdades de frente”.

Políticas precisam olhar para a mulher desde o início

A urbanista Daniela Mizuta, diretora de Projetos do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), explicou que o planejamento da cidade é um ciclo que envolve: diagnóstico, elaboração de projeto, implementação e monitoramento. Ela reforça que a perspectiva feminina precisa ser considerada desde o princípio.

“Como as mulheres vivenciam a cidade? Em termos de deslocamento, por exemplo, homens e mulheres são diferentes. As mulheres são as que mais utilizam transporte público e andam a pé. O homem usa mais o automóvel individual. […] A cidade é planejada na perspectiva do automóvel e de forma masculina”, alertou.

A mesa da audiência pública também contou com a fala da líder comunitária Andréia de Lima, promotora Legal Popular e integrante do Conselho da Ouvidoria Externa da Defensoria Pública do Paraná. Negra e periférica, criada no bairro Parolin, Andréia trouxe um dos relatos mais simbólicos da noite. Enquanto ela falava na Câmara, uma operação policial ocorria em sua comunidade.

“Não consigo sair do meu território em segurança e tranquila. Essa cidade foi preparada para as mulheres da periferia e daquelas que estão em situação de vulnerabilidade? Não, não mesmo. A iluminação pública dentro da periferia não existe. Essa cidade não é preparada. Quando alguém vai pensar em uma ‘Prudente de Moraes’ em nossos territórios?”, questionou.

Os ‘custos invisíveis’ da insegurança

A doutora em Planejamento Urbano e Regional Geisa Bugs, coordenadora do grupo de pesquisa “Encontros, Territórios e Redes”, que investiga a experiência das mulheres na cidade, complementou o debate com evidências científicas de pesquisas sobre mobilidade urbana feminina e a exposição à violência.

Os dados citados pela arquiteta e urbanista mostram que Curitiba não é vivida da mesma forma por homens e mulheres, e nem entre mulheres.

“No caso das mulheres, elas evitam certas rotas, linhas de ônibus e roupas. São as táticas de autoproteção, com custos invisíveis. Após às 22h em Curitiba, a presença masculina se torna majoritária e mesmo as mulheres da classe E usam mais transporte particular. Mulheres deixam de aceitar oportunidades de trabalho e estudo se o deslocamento envolve áreas perigosas”, descreveu.

Geisa Bugs analisou que o BRT, por exemplo, foi projetado na lógica masculina, ignorando os contornos femininos. A urbanista reforçou que medidas de segurança para mulheres envolvem policiamento, transporte, políticas intersetoriais e transversais, escuta ativa das mulheres, mas, sobretudo, campanhas de conscientização e educação.

Segurança para todos os corpos

O espaço de escuta criado pela audiência permitiu relatos como o de Francisca Cury, representante do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Ela conta que há dez anos está na cadeira de rodas e denuncia como vários espaços de Curitiba, muitos ao redor de equipamentos públicos como postos de saúde e escolas, não são acessíveis.

“Uma cidade será segura para todos quando for segura para uma mulher negra. Mas será realmente segura quando for segura para uma mulher PCD”, disse.

Viviane Vicentin, do Instituto Elos Invisíveis, contou que atua em presídios e em comunidades periféricas, muitas delas dominadas por facções e sem qualquer equipamento público. Ela chama a atenção para a falta de informações sobre as favelas de Curitiba, que abrigam milhares de pessoas “invisíveis” ao poder público pela completa falta de dados oficiais sobre esses territórios.

Ao longo da audiência, as participantes puderam ouvir relatos de várias mulheres, cada uma com seu repertório e história. Porém, todas atravessadas pelo medo e pela falta de segurança na cidade.

Emocionada, a vereadora Laís Leão encerrou a noite com o compromisso de levar adiante tudo o que foi compartilhado na audiência, como subsídio para políticas públicas.

“Não vamos parar. Estamos criando espaços mais fortes e nós vamos continuar. Vão continuar dizendo que somos histéricas e nós vamos continuar gritando cada vez mais alto. Esse espaço nos pertence. A gente não vai se calar.”

Foto: Carlos Costa/CMC

Fonte: Assessoria vereadora Laís Leão

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